Acadêmicos

Entre a sala de aula e a transformação social: o poder da docência no cotidiano acadêmico

Por Estéfani Primo

13/10/2026 23:01

Destaque
DUŠAN. [Ilustração de uma professora regando flores em uma sala de aula]. Pinterest, [s. d.]. Disponível em: https://sk.pinterest.com/scetska/. Acesso em: 13 out. 2026.

A rotina universitária por vezes nos conduz por caminhos mecânicos, mas a celebração da docência, marcada em 15 de outubro, surge como um momento essencial de pausa e reflexão sobre a profissão. Essa data foi oficialmente estabelecida no Brasil como feriado escolar por meio do Decreto nº 52.682, de 14 de outubro de 1963, sob a denominação tradicional de “Dia do Professor”, nomenclatura que, ao pautar-se no masculino genérico, carrega uma marca machista ao invisibilizar a expressiva presença feminina que historicamente constitui a maioria na formação e no exercício do magistério. Refletir de forma crítica sobre esse viés linguístico e valorizar a função docente na sociedade vai muito além de uma comemoração pontual; exige encarar a data como um espaço para debater o papel da educação, as condições de trabalho, a formação, o reconhecimento profissional e as políticas públicas necessárias para a área. Afinal, exercer a docência transcende a mera transmissão de conteúdos curriculares, significando participar ativamente da formação intelectual, social e cultural de gerações inteiras.

Dentro desse panorama, a formação proporcionada pela Licenciatura em Letras assume uma relevância singular no ambiente universitário. A graduação em Letras prepara profissionais capacitados para atuar no ensino de línguas e literaturas, áreas indispensáveis para o desenvolvimento da leitura, da escrita, da interpretação e da capacidade comunicativa dos estudantes. Os docentes de Língua Portuguesa lidam diariamente com instrumentos que permitem aos discentes compreender criticamente não apenas os textos escolares e obras literárias, mas também os diversos discursos presentes na sociedade.

A sustentação dessa trajetória está respaldada pela própria legislação educacional do país. O artigo 62 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei nº 9.394/1996) determina que a formação de professores para a educação básica ocorra em nível superior, em cursos de licenciatura plena, prevendo a articulação contínua entre formação inicial, continuada e capacitação do magistério. Cursar uma licenciatura representa muito mais do que obter um diploma: é o momento em que o futuro docente conecta saberes específicos de sua área aos fundamentos pedagógicos indispensáveis para compreender o processo de ensino e aprendizagem. Essa preparação em nível superior para os profissionais do magistério foi recentemente reforçada pelas Diretrizes Curriculares Nacionais estabelecidas pela Resolução CNE/CP nº 4, de 29 de maio de 2024, que veda a oferta de cursos de licenciatura totalmente a distância (EaD), assegurando a obrigatoriedade de carga horária presencial e de práticas pedagógicas diretas.

No caso específico de Letras, esse percurso formativo ganha uma dimensão ainda mais profunda, pois trabalhar com a linguagem é interagir diretamente com uma das principais formas pelas quais as pessoas se relacionam com o mundo. A língua permeia a comunicação cotidiana, a produção científica, a literatura, a imprensa, as redes sociais e as manifestações culturais. Ensinar língua e literatura, portanto, não se reduz à aplicação de regras gramaticais ou à simples leitura de obras literárias, mas consiste em fornecer aos estudantes ferramentas para interpretar criticamente o que leem, escrevem, escutam e produzem.

Para dimensionar a presença da formação docente no ensino brasileiro, os dados oficiais do Censo da Educação Superior de 2024, realizado pelo Inep, registraram 10.226.873 matrículas em cursos de graduação, distribuídas em 45.772 cursos e conduzidas por 374.501 docentes em exercício. Esses dados evidenciam que a valorização da profissão docente não deve acontecer apenas em uma data específica, precisando estar presente nas políticas educacionais e na maneira como a sociedade compreende o trabalho acadêmico. A formação do professor exige tempo, estudo, estágio, planejamento, constante atualização e um ambiente universitário fortalecido.

Em última análise, celebrar a docência significa reconhecer e valorizar quem escolhe a educação, pois são essas pessoas que assumem a responsabilidade de trabalhar com a linguagem, a literatura para que os discentes desenvolvam sua própria voz e participem de maneira mais consciente da sociedade. Trata-se de ensinar a ler o mundo por meio das palavras, reconhecendo que a educação, a linguagem e o conhecimento são instrumentos fundamentais para a transformação social.