Entrevistas

Mulheres extraordinárias com Tatiana Sampaio

Por Anna Júlia Ferreira

13/04/2026 17:59

Destaque
PATROCÍNIO ONLINE. Disponível em: https://www.patrocinioonline.com.br/noticia/pesquisadora-tatiana-sampaio-e-homenageada-na-ii-mostra-mulheres-extraordinarias-do-iftm-campus-patrocinio-84656.html .Acesso em: 20 mar. 2026.

Nosso instituto teve a honra de receber e homenagear no evento Mulheres Extraordinárias, organizado pelo NEDSEG do campus, a cientista, bióloga e professora Tatiana Sampaio. O evento, realizado no dia 12 de março, foi uma celebração às mulheres que se destacaram no cenário nacional e internacional, mas que a história não conta. O Zoom esteve presente na coletiva de imprensa que antecedeu a palestra. Confira a seguir a conversa incrível que tivemos com a professora Tatiana:


 


Abreviações:


Coordenador de comunicação: CC


Tatiana Sampaio: TS


Professora Bianca: PB


Zoom: Z


Demais jornalistas: DJ


 


CC: O que é o “Mulheres Extraordinárias”?


 


PB: É um projeto de extensão, desenvolvido pelo NEDSEG que é o Núcleo de Estudo de Diversidade, Sexualidade e Gênero, o qual eu coordeno. Todo ano a gente realiza essa mostra de mulheres extraordinárias, a partir da leitura de um livro que se chama “Mulheres Extraordinárias”. Então os estudantes do NEDSEG selecionam em torno aí de 20 mulheres e a gente tem algumas exigências, por exemplo: ser uma pessoa do IFTM e ser uma pessoa da região. O restante, os alunos estão livres para escolher. Depois, é feita uma votação dentro da instituição, os alunos votam e as dez mulheres mais votadas, nós homenageamos: fazemos quadros, vídeos, cada professor que tem uma ligação com a temática da mulher vai desenvolver trabalhos dentro da sala de aula para contar a trajetória dessa mulher e depois, em parceira com a superintendência de ensino, a gente vai com esse projeto itinerante em todas as escolas estaduais de Patrocínio.


 


CC: (…) Eu queria que a senhora falasse sobre a importância de fazer essa interlocução com outros institutos, principalmente no instituto que a gente começa a pesquisar, a base da pesquisa está aqui. Qual a importância para inspirar esses meninos e meninas, principalmente, na área de pesquisa?


 


TS: Eu acho que é fundamental, a gente trabalha, eu sou professora da UFRJ, que é uma universidade com ensino superior, não temos ensino médio, nem técnico, só superior. A iniciação científica é fundamental pra gente, né? No meu laboratório, todos os alunos da pós-graduação vieram da iniciação científica, todos eles. Ninguém entra direto na pós-graduação, né? Todo mundo começa a fazer o estágio no laboratório nessa fase. E nós já tivemos muitos alunos de escola técnica também que faziam o estágio, pra  finalização do curso de escola técnica. Principalmente a federal de química que tem lá no Rio, tem um curso bem voltado para a biotecnologia. Então, essa interação do laboratório, do trabalho de pesquisa com a universidade com a iniciação científica, tanto no nível de graduação quanto de ensino médio é nossa realidade, sem isso não anda não.


 


DJ: Doutora, a senhora teve diversos questionamentos a respeito da pesquisa da senhora, alguns ajustes e algumas críticas. Como a senhora tem feito esses ajustes e, também, essas críticas?


 


TS: Sinceramente? Não dou a menor bola. Porque são críticas de pessoas mal informadas, e que estão querendo fazer polêmica em cima de uma coisa que não existe polêmica. São críticas voltadas para um pré-print que é um trabalho sem revisão, um trabalho prévio que a gente publica só para ficar marcado que a gente fez, então, ele foi um trabalho  preliminar, depois ele foi melhorado. A versão que hoje está pronta para submeter, é uma versão que não tem nem um dos problemas apontados. Erro de digitação: eu acho que assim, a pessoa que aponta que um erro de digitação é um erro em um trabalho científico é uma pessoa não muito inteligente. Porque ela poderia deduzir, se ela tivesse neurônios bem conectados, ou é uma pessoa maledicente, que está querendo fazer insinuação. Então pra mim, não me afeta. Já respondi todas as perguntas, não queria, mas sentei com dois jornalistas lá respondi tudo direitinho. Mas para mim tá encerrado o assunto.


 


DJ: Como é para a senhora ser a inspiração para tantas e tantas pessoas, para tantas e tantas mulheres e tantas e tantas crianças que ainda estão em formação?


 


TS: Olha, eu fico muito feliz, muito emocionada, eu tenho que dizer para vocês que eu fico muito surpresa. Porque a gente sempre ouve dizer “Ah, que Brasil não gosta disso!”; “Ah, brasileiro não gosta de ciência, brasileiro só gosta de bobagem!”. Eu não vejo isso, nunca achei isso. Agora é muito claro pra mim que as pessoas amam ciência, a vibração que eu vejo no olhar das pessoas, a alegria que eu vejo nas pessoas que vem falar comigo que vem me cumprimentar, na torcida, no envolvimento e engajamento. As pessoas querem saber, querem dar opinião, estão interessadas. Não uma coisa só festiva, é uma coisa e interesse mesmo. E a polilaminina é um trabalho em desenvolvimento, eu acho que já tá mais para dar certo, do que pra não dar. (...) Mesmo que não dê, só o fato da gente conseguir pautar, trazer o interesse pela pesquisa, o interesse, a percepção de que a universidade é importante, o debate de como transferir o conhecimento gerado na universidade para a sociedade… Essas questões, que são as questões que nunca fizeram parte do interesse das pessoas de modo geral, agora eu acho que estão na casa de todo mundo. 


 


DJ: A gente está no Instituto Federal, onde os alunos começam esse trabalho de pesquisa, e hoje, como você já bem disse, muitos tem esse sonho de ser cientista. Queria ouvir um pouco da Tatiana criança, jovem: ser cientista já era ser um sonho desde então? E aproveito para perguntar também como a pesquisa está hoje?


 


TS: Sim, já sonhava em ser cientista quando era criança. De onde vem esse sonho? Meu pai gostava muito de ensinar, gosta de ensinar coisas pra gente, qualquer coisa. E eu era cobaia dele. (...) Ele gostava de pensar em formas de ensinar, então… o contato com o conhecimento, às vezes até mais avançado para a idade, eu tive desde criança. Isso me desenvolveu essa curiosidade, vontade de conhecer, de saber mais. O conhecimento, o aprendizado é uma coisa que causa felicidade. (...) Então, poder viver no contato com o conhecimento, trabalhar desenvolvendo o conhecimento é um privilégio enorme que eu acho que todo mundo deveria experienciar. (...). A segunda pergunta é sobre como está a pesquisa. Nós tivemos autorização da Anvisa para iniciar o estudo clínico. A autorização saiu no início de janeiro, ela já estava pedida a três anos, e demorou três anos para sair, mas finalmente saiu. E o processo é assim: primeiro a Anvisa autoriza, depois passa para o comitê de ética e depois é que você faz os contratos que vão tomar conta da operacionalização do estudo. Por que é assim? Porque você só pode assinar um contrato quando acaba a discussão com a Anvisa, e a Anvisa finalmente “pá”, esse é o protocolo. Aí vai para o comitê de ética, o comitê de ética também modifica o protocolo (...) Três dias depois da Anvisa foi para o comitê de ética, aí fico lá cinquenta dias. Aprovaram no dia 23 de fevereiro, aí foi para a parte de operacionalização, então agora os contratos já estão assinados. Está marcada a reunião de equipe, para todo mundo ficar sintonizado, a previsão é abrir esse estudo no início de abril.


 


DJ: O que a senhora diria para as meninas e jovens que sonham em seguir carreira na ciência nos tempos de hoje?


 


TS:  Eu diria que as portas estão abertas e quem deseja percorrer uma carreira na ciência, seja bem vinda. Acho que é… como eu falei agora pouco é uma carreira animada, não tem muita rotina e tem muita liberdade. Existe uma dificuldade, que eu acho que é de qualquer carreira, que é de conciliar a vida profissional com a vida familiar, com a maternidade, com casamento, com uma vida familiar, que é um desafio para todo mundo. (...) O trabalho consome muito, cada vez consome mais, cada vez temos menos tempo, e… e… acaba que o cobertor é curto, você puxa daqui, puxa dali. Tem carreiras em que você consegue fazer com menos envolvimento de tempo. A carreira de ciência, de pesquisa, demanda uma dedicação grande e você acaba ficando com menos tempo para a família. O que eu acho que é um problema, eu sou mãe, não sei se ter filhos prejudicou minha carreira, mas ter carreira certamente prejudicou meus filhos. (...) Uma coisa que eu acho muito importante na luta das mulheres é lutar por creche de boa qualidade, assim, você ter uma creche de boa qualidade, (...) é uma coisa muito importante. Se eu fosse dizer qual a coisa mais decisiva para eu conseguir ter, sei lá, conseguido ter levado minha vida até aqui, ter conseguido ter conquistas e tudo, eu acho que foi ter tido acesso a escola infantil da UFRJ. (...)


 


Z: A gente queria saber, você que usou de recursos próprios para sair lá do Rio e vir aqui dar essa palestra. Que tanto os docentes, quando os alunos estão muito agradecidos por essa ação sua. O que te motivou sair do Rio e vir aqui para Patrocínio?


 


TS: Foi a mensagem da Bianca. Eu tava com celular na mão e a mensagem dela entrou. E ela fez uma mensagem assim tão bonita, e eu tô dizendo “não” para quase tudo, mas eu vi assim um pedaço achei muito interessante e li o resto. Achei tão legal o jeito que ela escreveu que eu falei “ tenho que ir em uma, vou nessa daí”, me ganhou.


 






PATROCÍNIO ONLINE. Disponível em: https://www.patrocinioonline.com.br/noticia/pesquisadora-tatiana-sampaio-e-homenageada-na-ii-mostra-mulheres-extraordinarias-do-iftm-campus-patrocinio-84656.html .Acesso em: 20 mar. 2026.