Refletir sobre as relações entre arte e cidadania, na posição de professor de Artes do IFTM, é pensar a partir da noção de que a Arte – escrita, assim mesmo, no singular e com letra maiúscula – é, antes de tudo, um campo do conhecimento, uma área do saber. Sob essa perspectiva, os artistas não seriam apenas criadores de obras artísticas, mas sujeitos que investigam o mundo de determinadas formas, valendo-se de métodos, técnicas e poéticas específicas a esse campo. O conhecimento produzido por esses “conhecedores artísticos”, diferentemente da objetividade utópica que rege o modo de investigação dos cientistas, partiria do que, para nós, humanos, tem a ver com sensibilidade, emoção, imaginação, criatividade, inspiração, subjetividade. Muitas vezes, é somente por meio do modo de conhecer próprio aos artistas – e do tipo de conhecimento produzido pela Arte – que conseguimos expressar determinadas coisas (ideias, conflitos, afetos, intuições) impossíveis ou, pelo menos, muito difíceis de serem expressas pelas outras áreas do saber.
É nesse sentido que os termos “arte” e “cidadania” sensibilizam minha memória e trazem à tona os conceitos de deriva e psicogeografia (ou geografia afetiva), cunhados pelos artistas e pensadores do grupo francês Internacional Situacionista, atuante na Europa nos anos 1960 do século passado. Conheci esse grupo por conta de uma montagem teatral da qual participei, na cidade de São Paulo. Os situacionistas – os criadores de situações – tinham muito interesse em transformar as relações que as pessoas estabelecem com as cidades que habitam e buscavam fazer isso de uma maneira artística, ou seja, que inspirasse e sensibilizasse as pessoas. Assim, o que eles chamavam de “deriva” era um “método para se perder, a pé, na cidade”. Consistia, basicamente, em se colocar no espaço público, definir uma duração, traçar uma regra simples (às vezes chamada de “programa”, às vezes de “dispositivo”) e seguir essa regra durante o tempo estipulado. Por exemplo: “durante uma hora, vou caminhar pela calçada em linha reta, virar sempre a primeira rua à direita e, em seguida, virarei a segunda rua à esquerda”. A ideia era gerar um deslocamento programado, mas sem destino fixo; uma errância pela cidade que a revelaria de um modo não habitual, potencialmente surpreendente. Na verdade, a deriva era o método encontrado pelo grupo para cultivar algo ainda mais importante: o efeito emocional gerado, nas pessoas, pela geografia, pela arquitetura, pelo urbanismo, por tudo que é, em suma, concreto no espaço público. Acredito que a maioria das pessoas já se sentiu estranha ao passar por determinada rua ou percebeu uma mudança de estado de espírito ao transitar por uma área específica da cidade. É, justamente, a essa experiência que os situacionistas davam o nome de psicogeografia (ou geografia afetiva).
Lembro-me de “me perder com método” pelo bairro paulistano do Bom Retiro, ao longo do processo de montagem teatral do qual participei. A ideia era usar as experiências suscitadas pelas derivas para, posteriormente, criar cenas. Era muito instigante notar como as ruas daquela região central e comercial, meio degradada, meio presunçosa, meio feiosa e bem suja (como, em geral, é a cidade de São Paulo), ganhavam, pelo fato de eu estar ali, errante, passando por elas engajado em uma exploração sensível e não apenas transitando de forma habitual e utilitária, um ar poético, cinematográfico até. E o mais bacana é que era um “filme-poema” ao qual somente eu assistia. Não sei por que, mas era interessante esse senso de exclusividade; talvez isso trouxesse consigo um ar de dignidade bastante satisfatório. Alguns “episódios” perigosos, por vezes, também ocorriam: de repente, seguindo o “programa”, eu me deparava com a Marginal Tietê, onde somente carros e cocôs têm direitos garantidos, ou com a região chamada de Cracolândia, e tudo que ela implica. (Nesses momentos, eu abria mão da deriva até encontrar uma região em que me sentisse mais seguro e pudesse retomá-la.)
Essa experiência de ter uma “cidade invisível”, “poética e cinematográfica”, “só para mim”, enquanto caminhava pela cidade concreta e cotidiana que julgava tão bem conhecer, era algo que só a experiência artística tinha podido me apresentar. Mas não se tratava de algo totalmente estranho ou inédito. Eu já havia sentido algo parecido e, aí, talvez, chegue ao ponto mais importante até aqui: eu também havia provado emanações desses “filmes-poema” quando comecei a estudar teatro (aos dezesseis anos) e passei a fazer novos trajetos por São Paulo em busca dos espetáculos teatrais aos quais queria assistir. Que curioso: no meio de um processo criativo teatral, já trabalhando como profissional, sensibilizei-me para a minha cidade e fiquei, por ela, surpreendentemente inspirado, de um modo que o próprio teatro já havia, indiretamente, me proporcionado ainda como estudante.
Pelo menos para mim, adolescente criado nos primeiros bairros da Zona Leste paulistana, região historicamente afastada dos privilégios econômicos e culturais do Centro e da Zona Oeste (onde se encontravam, e ainda se encontram, as principais salas de espetáculo da cidade), não havia muito motivo para sair do meu reduto, até mesmo porque São Paulo deixa muito claro, por meio de barreiras urbanas mais ou menos explícitas, quem é e quem não é bem-vindo em determinados espaços. Para os que vivem nas periferias, então, essas barreiras são absolutamente cristalinas. Mas, por conta de uma oportunidade artístico-cultural (estudar teatro), um adolescente encantado por essa linguagem passou a ter todos os motivos para se meter onde não era chamado e, mais importante ainda, passou a poder conhecer e decorar (a conhecer com o coração) os caminhos a serem trilhados pelas terras estrangeiras em que sua presença não era prevista, de modo que, por insistência metódica, tornava, pouco a pouco, essas terras também suas (se fosse perto do metrô e com ingresso barato e/ou gratuito, melhor ainda, não há como negar). O “filme-poema” que rodava em minha mente, enquanto derivava pelas ruas do Bom Retiro em busca de material para a criação de uma peça de teatro, já havia sido, de alguma forma, esboçado pelos itinerários que fizera anos antes em busca de espetáculos teatrais. A cidade já havia sido previamente mapeada pelos afetos associados às peças assistidas; já havia sinapses que, de alguma forma, conectavam o encantamento de uma cena ao itinerário urbano feito para poder assisti-la…
Em meio a tantas derivas, o que, de fato, defendo aqui é que o contato com linguagens artísticas (seja por intermédio da fruição, como assistir a um espetáculo teatral, seja mediante a criação, como participar de um grupo de teatro) nos fornece instrumentos e oportunidades para que exerçamos continuamente a cidadania, sobretudo, em sua dimensão mais profunda: a afetiva. Poder criar seus próprios “filmes-poema” sobre a cidade em que se mora seja, talvez, um privilégio muito bem protegido por quem se sabe privilegiado e cujas ações são, historicamente, regidas pelo intuito de assim permanecer e, assim, se perpetuar. Não é fortuito que o contato com a Arte, e principalmente com algumas instituições artísticas, como museus, galerias e salas de espetáculo, seja mantido inacessível para a maior parte da população. Em vista disso, virando talvez a última rua à esquerda deste texto errante, vislumbro um potencial inerente às aulas de Artes, em contextos como os do IFTM: cultivar essa dimensão afetiva da cidadania; fornecer recursos para novos roteiros de “filmes-poema”; encorajar derivas em busca de novas geografias afetivas. Afinal, as linguagens artísticas sabem encontrar seus jeitos de nos darem bons motivos para deslocamentos (sejam literais, sejam metafóricos). Desse modo, quem sabe, como autores de “filmes-poema”, descortine-se, nos estudantes, um campo de ressonâncias em que possam vir a se reconhecer nas dinâmicas das cidades que habitam, deixando, pois, de se verem excluídos delas simbolicamente, caso assim se vejam.