Arte

O poder transformador da natureza e da amizade

Por Larissa Marques Ferreira

04/06/2026 16:50

Destaque
Imagem: Capa do livro "O Jardim Secreto". COMIC BOOM! (2026)

“Criança mirradinha, antipática e sem graça”; uma “tiraninha autoritária e egoísta”. Era assim que a protagonista Mary Lennox era caracterizada antes do maior e melhor acontecimento de sua vida.


Escrito por Frances Hodgson Burnett e publicado em 1911, O Jardim Secreto é um clássico da literatura infantojuvenil que aborda temas como amizade, superação, solidão e o poder transformador da natureza.


“Coisas muito piores podem acontecer com uma criança do que ser deixada sozinha. O pior é quando ela é cercada por pensamentos sombrios e egoístas.” — Frances Hodgson Burnett


Isso porque Mary foi uma criança indesejada, filha de uma mulher vaidosa que só queria aproveitar a vida e de um pai constantemente ocupado com seu trabalho para o governo inglês, além de sempre adoentado e, portanto, ausente. Dessa forma, ela foi deixada aos cuidados dos empregados da casa, que lhe permitiam fazer tudo o que queria, já que era mandona e insuportável quando tinha seus chiliques.


Esse ambiente nada familiar e nada acolhedor a transformou no tipo de criança que — perdoe-me pelo que vou dizer —, se eu pudesse entrar no livro, daria uma bela bronca a cada resposta malcriada que ela dava. Sua falta de educação era reflexo direto da forma como foi criada e o lugar hostil que morava.


Ao ler, a vontade era exatamente essa. Mas quem diria que a autora encontraria um caminho muito mais pacífico para transformar completamente o comportamento daquela pequena garota em algo mais agradável?


Após uma epidemia de cólera que matou seus pais e grande parte dos empregados da casa, Mary sobreviveu justamente por estar isolada em seu quarto. Em seguida, foi enviada para morar com seu tio na mansão Misselthwaite.


À primeira vista, o lugar não era muito diferente de sua antiga casa: uma mansão sem vida, com um dono meio sem vida e um filho que acreditava estar quase sem vida. Mas havia ali a empregada Martha, de vida simples e coração generoso, cuja alegria contrastava com toda a tristeza que parecia habitar aquele lugar. E o que havia de diferente em sua forma de viver? Nada demais. Apenas alguns irmãos que cuidavam uns dos outros e moravam em uma casinha no meio da charneca. Era esse ambiente simples, divertido e cercado pela natureza que mantinha aquelas crianças de bom humor.


Tudo bem. Mas, depois dessa história toda, onde quero chegar?


Um estudo realizado por pesquisadores do Centro Médico Universitário de Amsterdã, na Holanda, revelou que morar próximo a áreas verdes pode diminuir em até 21% o risco de desenvolver depressão. Além de favorecer a saúde mental, o contato frequente com a natureza contribui para um sono de melhor qualidade, fortalece o sistema imunológico, estimula o desenvolvimento cognitivo e auxilia na prevenção de problemas cardíacos e respiratórios.


Quem, aqui no interior de Minas, não gosta de viajar para a “roça”, para a praia, visitar a Serra do Cruzeiro ou mesmo fazer uma trilha durante as férias? Mais do que um gosto, talvez seja uma necessidade. Martha parecia saber disso, e foi justamente ela quem apresentou seu irmão Dickon a Mary: o amigo dos animais e admirador da charneca. A partir daí, a história se desenrola de maneira fluida e instigante, acompanhando o crescimento da amizade entre Mary, Dickon e Colin, além do desenvolvimento do tio de Mary, o Sr. Craven. Tudo isso acontece em paralelo à revitalização do jardim secreto.






Imagem: Dickon tinha trazido um cordeirinho e dois esquilos pela charneca. PINTEREST (2026)


Enquanto as flores desabrocham no jardim, nosso querido pisco-de-peito-ruivo encontra uma companheira. Juntos, eles constroem um ninho e, mais tarde, têm filhotes. Mary acompanha com interesse o desenvolvimento daquela pequena família de pássaros.






Imagem: Mary e Dickon observavam o pisco cantarolar no jardim secreto. PINTEREST (2026)


Os filhotes aparecem como parte da simbologia da obra: assim como o jardim volta a florescer, a vida também se renova por meio dos animais, das plantas e das transformações vividas pelos personagens. O ninho do pisco reforça a ideia de crescimento, cuidado e recomeço, temas centrais do livro.


Além da amizade e do amadurecimento, O Jardim Secreto também dialoga com uma questão muito atual: a necessidade de reconexão com a natureza. Em uma sociedade marcada pelo ritmo acelerado, pelo excesso de tecnologia e pela lógica mercadológica, muitas pessoas buscam no campo, nos parques e em outros espaços naturais uma forma de recuperar o bem-estar físico e emocional. Na obra, o jardim abandonado não é apenas um cenário, mas um espaço de transformação e cura, capaz de renovar a saúde, os sentimentos e a maneira como os personagens enxergam a vida.


Nesse sentido, Frances Hodgson Burnett antecipa uma discussão que permanece relevante até os dias de hoje, mostrando que o contato com a natureza pode ser um importante caminho para o equilíbrio, a qualidade de vida e o autoconhecimento.


Os temas de cura, renovação, amadurecimento e o poder transformador da natureza são marcas registradas da autora e influenciam gerações. Burnett frequentemente explorava esses mesmos conceitos em outros clássicos, como: “A Princesinha” (1905)  e “O Pequeno Lorde” (1886). O Jardim Secreto, A Princesinha e O Pequeno Lorde abordam a transformação das pessoas por meio da bondade e da esperança. A diferença está no que provoca essa mudança: em O Jardim Secreto, é o contato com a natureza; em A Princesinha, a imaginação e a resiliência; e em O Pequeno Lorde, o amor e a inocência infantil. Apesar disso, todas as obras mostram que é possível superar dificuldades e transformar vidas de forma positiva. 


Cada um tem um jardim dentro de si. Talvez seja possível fazer essa analogia. E um personagem danadinho e muito inteligente fez exatamente isso. Só lendo para descobrir do que estou falando!