Acadêmicos

Escala 6x1

Por Estéfani Primo

04/06/2026 21:11

A discussão acerca dos direitos trabalhistas no Brasil existe desde o século XX, que foi marcado pelas revoltas, greves e protestos contra a exploração que os trabalhadores sofriam em seus ambientes de trabalho, uma herança pungente do período escravagista, momento em que os trabalhadores viviam por seus patrões. Com a abolição da escravatura, o modelo de trabalho se fixou como um favor mal pago que o empregado fazia para o patrão. Em 1917, se inicia no Brasil e, seguindo os moldes da Revolução Industrial (1760-1840), ocorreram greves que tinham como principal foco uma melhoria salarial e melhores condições de trabalho: nesse período, os salários eram precários, a jornada trabalhista chegava a 16 horas diárias, crianças trabalhavam como adultos em fábricas e o trabalho noturno era concluído com as mesmas condições do diário: sem uma compensação extra pelo horário. Trabalhadores cruzaram os braços pelo Brasil e receberam uma de suas demandas: o aumento salarial, além da anistia pela greve e o direito de se organizarem em sindicatos para que pudessem lutar de forma organizada, formando-se assim os sindicatos, órgãos institucionais geridos por trabalhadores e com o intuito de lutar pelos seus direitos.


No ano de 1930, já no governo de Getúlio Vargas, é criado o chamado Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio, visando um contato maior entre governo e fábricas, o que auxilia no início de conversas acerca de uma legislação trabalhista, isso se consolida em 1934 diretamente na Constituição vigente daquela época com a definição de um salário mínimo, ainda que não padronizado, tendo custo de vida e inflação como base para o cálculo salarial. Em 1943, o salário mínimo e diversos outros direitos passam a integrar a Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT); também nesse período ocorre a ampliação da proteção ao trabalho feminino e à maternidade. Entretanto, apenas em 1946 políticas sociais passam a considerar de forma mais ampla a família trabalhadora, por vezes sustentada por uma única fonte de renda.


No ano de 1953 aconteceu a Greve dos 300 Mil. As reivindicações exigiam reajuste salarial, trabalhadores alegavam que as pesquisas feitas pelo governo sobre o custo de vida estavam sendo manipuladas pelos donos das indústrias, o que fazia com que os salários fossem abaixo do que havia sido prometido anteriormente, com o acordo sobre aumento conforme inflação e custo de vida. O presidente, ainda Vargas, fez um reajuste salarial em 100% um ano depois, o que não exatamente alegrou a elite brasileira, mas conseguiu apaziguar a situação com os sindicatos (que nesse ponto já existiam e lutavam na linha de frente pelos trabalhadores). Também nesse momento foi criado o DIEESE (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), visando fazer pesquisas que tivessem o olhar do trabalhador para além do olhar governamental, além de negociações mais justas.


A década de 1960 surge como um grande avanço no que diz respeito aos direitos trabalhistas: 13º salário, salário-família, ampliação de direitos ligados à maternidade e fortalecimento dos debates sobre direito à greve. Nos anos seguintes ampliaram-se garantias relacionadas à segurança do trabalho e regulamentações voltadas à proteção do trabalhador.


Ainda na década de 60 e seguindo os moldes políticos existentes na América Latina daquele tempo, entre os anos de 1968 e 1973, o Brasil passou pelo que foi chamado de “Milagre Econômico”, período ditatorial em que o salário mínimo se manteve congelado com a crença de que o aumento salarial também aumentaria a inflação do país. Isso se consolidou até os anos finais da ditadura. Em 1984 estabeleceu-se um salário mínimo unificado para todo o território brasileiro — até então, embora existisse o conceito de salário mínimo, havia diferenças regionais relacionadas ao custo de vida —, além do fortalecimento gradual de benefícios previdenciários e assistenciais.


Na década de 90, com o lançamento do Plano Real, houve a consolidação de mecanismos de reajuste salarial visando acompanhar melhor a inflação nacional. Apenas nos anos 2000 surgiram regulamentações mais específicas sobre estágio, ainda sem excluir os estágios não remunerados que seguem sendo um debate contemporâneo. Em 2003 o salário mínimo passou a integrar mais diretamente discussões ligadas ao orçamento público, mas entre os anos de 2004 e 2005 trabalhadores marcharam Brasil afora pedindo garantias de reajuste salarial antes da votação orçamentária da União (a receita fixa e despesa esperada para aquele ano). Ainda em 2005 o ciclo se encerrou com negociações sobre valorização salarial contendo participação de sindicatos, marco na luta trabalhista brasileira. Anos depois ocorreram avanços relacionados à ampliação de direitos do trabalho doméstico e reformas trabalhistas que tinham como objetivo modernizar disposições da CLT.


Essa linha de tempo construída com sangue e suor de brasileiros trabalhadores, embora não tenha explicitamente mencionado cada marcha, protesto, greve, reivindicações conquistadas e negadas, só demonstra o quanto o povo brasileiro quer, para além de trabalhar, dignidade. Muitas reivindicações básicas que temos hoje, como a proibição do trabalho infantil, já debatida e questionada em 1917, só foram fortalecidas constitucionalmente em 1988, mas o fato é que, no Brasil, a luta por melhores condições trabalhistas não parte da busca pelo ócio, mas pela busca de qualidade.


Os estudantes do IFTM Campus Patrocínio, já muito conhecido por ser um campus com alunos que trabalham, especialmente os estudantes das graduações e pós, necessitam descansar para que consigam se dedicar às suas tarefas dentro e fora dos muros institucionais; todos sabemos o quão pesada é a rotina universitária e, adicionando uma semana de trabalho na escala 6x1, as chances de desistência do meio acadêmico tornam-se ainda maiores. A pandemia da Covid-19 colocou em perspectiva o que consideramos importante para nossas vidas, trazendo à tona o debate sobre justiça laboral e de que forma podemos balancear vida pessoal e profissional, o que não conseguimos em todas as ocasiões, mas em especial quando temos o bônus estudantil.


A luta pelo fim da escala 6x1 é uma luta trabalhista, social e estudantil.